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Terra Saloia

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Até ao início do século XX, Queluz e Belas eram campo e terra de “saloios” – o nome pelo qual eram conhecidos os habitantes dos arredores rurais de Lisboa. 

O termo saloio tem uma origem incerta. Pensa-se que poderá ter origem na palavra árabe “salah”, ou seja, uma das cinco orações diárias praticadas pelos Muçulmanos.

Com efeito, uma larga comunidade moura saiu da cidade de Lisboa após a conquista Cristã de 1147, tendo-se instalado nos arredores da cidade, onde se dedicaram à agricultura e ao pequeno comércio.

Os saloios viviam principalmente da agricultura e pecuária, e do comércio de produtos agrícolas.
Eram bem conhecidos em Lisboa os habitantes dos arredores, que se deslocavam diariamente à cidade, em burros e carroças, para vender legumes e fruta - bem como animais de capoeira, leite e queijos, entre outros produtos.

Eram também muito conhecidas as lavadeiras, que recolhiam em grandes trouxas a roupa dos citadinos e depois a lavavam nas ribeiras, tanques e lavadouros dos arredores.

Neste vasto território, pontuado por pequenas aldeias e vilas, a sociabilidade dava-se sobretudo em dois os espaços: as feiras ou mercados; e as romarias em honra de santos locais.


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Alberto Antas
101 anos


Nasceu, cresceu e sempre viveu no Bairro do Chinelo, em Queluz



O Sr. Alberto foi sempre conhecido em Queluz por “Saltão” – aliás, já o pai e avô eram conhecidos por “Saltão”.

Nasceu no Bairro do Chinelo em 1921. Já os pais eram do bairro, e no ano em que nasceu Queluz era sobretudo campo, “terra saloia”.

A avó de Alberto tinha um “casal” (quinta com casa agrícola) , o “Casal dos Afonsos”, do outro lado do atual IC19. Perto ficava a “Quinta do Buchas”, nome dado ao rendeiro da mesma.
Os avós do senhor Alberto “plantavam e vendiam (…) tudo quanto era preciso. Tinham animais, e eu também tratava dos animais, Tinham vacas, ovelhas, isso tudo. Comecei pequeno a ajudar a tratar dos animais.”

Complementavam a economia familiar com a caça: “Desde pequeno que fui caçador. Ia caçar aí para os montes. Eu e os meus colegas chegámos a apanhar vinte coelhos num dia. (…) Naquele tempo nem tinha espingarda, comecei a caçar com um pau e com os cães. Já tinha vinte e tal anos quando comprei a espingarda.”

“As pessoas trabalhavam no que havia. Uns aprendiam um ofício, outros iam trabalhar para o campo. Trabalhar [no campo] por conta de outros! Ia-se para a ceifa. Fiz altos “giros” (caminhadas) para Amadora e para a Brandoa, para apanhar erva para os animais. Agarrava numa foice – e lá ia o Alberto!”

Lembra-se de quando as ruas do Bairro do Chinelo não eram calçadas, mas em terra-batida. Havia no bairro duas padarias: uma na atual sede do GAVE, pertencente ao Tio João Alemão; e uma segunda mais acima, do António Padeiro. Havia duas vendas de secos e molhados, uma taberna e uma barbearia. Havia também a Sociedade (31 de Janeiro), que possuía uma banda filarmónica.

Era uma aldeia dentro da aldeia que era Queluz: “Antigamente, nos Quatro Caminhos [centro de Queluz] não havia nada. Havia o prédio onde está o talho… e os aquedutos. Depois é que começaram a construir, até à Estação [de Caminho de Ferro]. Havia até lá uma propriedade, de que muita gente não sabe, mas que era o Alto da Vargem. Tinha terra desde abaixo do talho até à Estação. Aquilo era tudo terras de semeadura por ali acima!”

“Onde é ali o jardim [Jardim Central de Queluz], era a Quinta Almeida Araújo… Antigamente ali não havia casas. Aquilo tinha um muro todo à volta até ao Casal do Choupo. Depois começaram a vender aquilo aos bocados… Até me parece, que foi o Conde Almeida Araújo que deu o jardim a Queluz.”

Fazia-se um mercado de gado mensal no Largo do Palácio, em frente ao Quartel. “Um mercado onde se vendia de tudo, mas onde se vendia também animais. Vendia-se touros, vendia-se tudo! (…) Eu ia com um senhor aqui do bairro, o Senhor Caetano, que era como se fosse meu pai, e eu ia ajudar. Lembro-me como se fosse hoje! Vinha gente de todo o lado. Era no fim do mês, mesmo!”

O Sr Alberto teve três charretes, que o próprio construiu. “Tinha eu seis anos e já passava aqui na estrada em frente a cavalo. (…) Eu gostava de cavalos, fazia empenho naquilo. O meu pai tinha [cavalos], comprava e vendia gado.”

Eram tempos de pobreza nos arredores de Lisboa, e muitos habitantes tinham de recorrer à caridade. “Toda a gente trabalhava! Alguns foram “criados” (sustentados) do rancho do
Quartel [de Queluz]. Para nós graças a Deus nunca foi preciso, e não é que eu fosse mais que os outros! Mas ia muita gente ao Quartel, até gente de fora, com uma latazinha ou uma panela. Enchiam-nas de comer e eles lá iam. Era assim na Amadora, no Cacém, na Carregueira. E quem precisava, tinha de lá ir!”

“As casas aqui no bairro, agora, são praticamente de cada um. Antigamente não! Havia casas que tinham 7 e 8 filhos em casa. (…) Aquela casa em frente a onde eu moro, a casa da Tia Dores, da Tia Rita, ali havia uns 7 ou 8 filhos na mesma [casa].”

“Eletricidade em casa? Não! Existia o candeeiro [de petróleo], uma vela…” Fala-nos de uma “candeia” – tabuleiro de forma retangular, com uma mecha em tecido, e que se enchia de azeite. Uma vez acesa, garante o Sr. Alberto, iluminava toda a noite. Quando casei [em 1947] ainda não havia aqui eletricidade.”

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Francisco Domingos
87 anos

Nasceu na Agualva e vive há 73 anos no Bairro do Chinelo, em Queluz


“Nasci na Agualva, em casa dos meus avós. Os meus pais e os meus avós eram vendedores. Vendiam queijos que faziam e ovos. Vendiam de porta em porta, a cavalo numa burra. Percorriam todo o Concelho de Sintra, a vender. O meu avô também era carpinteiro.”

Mais tarde, os pais de Francisco Domingos mudaram-se para uma casa no Bairro do Chinelo, em Queluz. Este era ainda um território profundamente rural: “Queluz era mais vazio. Era quintas! Havia muitas casas com quintais. Não estava nada construído e havia muito terreno. Então cada vivenda tinha um quintal bom.”

“As galinhas andavam à solta no bairro! E entravam sozinhas na casa das pessoas. E patos! Iam lá para baixo para o rio, sozinhos. Depois subiam, vinham para cá. Quase à noite, lá vinham eles todos juntos por aí fora!"

Como muitas mulheres dos arredores de Lisboa, a mãe de Francisco lavava roupa para fora. Ou seja, recolhia em grandes trouxas a roupa das freguesas citadinas, e depois lavava-a nas ribeiras, tanques e lavadouros dos arredores. Esta profissão e o mundo que a rodeava foram imortalizados no conhecido filme português de 1938, A Aldeia da Roupa Branca.

Mas a realidade estava longe da idealizada pelo filme:
“A minha mãe não podia [ter os filhos consigo]. Vivia do trabalho dela… Lavava roupa e levava-a de porta a porta às clientes. Era lavadeira! Lavava a roupa ali em baixo, no rio público (sic). Todos os dias levava uma trouxa de roupa, ai Jesus… E voltava com ela molhada, ai… Era um peso bruto, coitadinha!”

“O meu pai era maquinista da CP. A minha mãe teve 12 filhos e morreram quatro em pequeninos – escapámos oito! Cinco raparigas e três rapazes. A minha mãe trabalhou muito, ficou com oito filhos. O marido morreu muito cedo… (…) Eu ia fazer quatro anos, e a minha irmã mais nova dois. A mim e à minha irmã mais nova, meteram-nos num orfanato, onde eu estive dez anos. Era o Orfanato-Escola Santa Isabel, em Albarraque. (…) Foi o melhor que me podia ter acontecido na vida! Porque de lá saí preparado para enfrentar este mundo em que nós vivemos.(…) Saí do orfanato com 14 anos.”

Francisco revela-nos um mundo rural que se começa a industrializar e a urbanizar:
“Aos 14 anos fui trabalhar numa fábrica em Queluz de Baixo, como servente. Era uma fábrica que fazia mosaicos para o chão. Trabalhei lá uma temporada, depois aquilo fechou e eu fui dar serventia nas obras. Ora, ninguém me dava nada!”

“Normalmente, os homens [do bairro] trabalhavam na construção civil. Outros havia que eram pintores de casas. E tinham sempre muito trabalho! A construção estava a aumentar [em Queluz] e começou a dar trabalho. Outros eram empregados no caminho de ferro – havia aqui uns quantos… Eu empreguei-me cedo e trabalhei 34 anos na Fábrica Portugal. Também andei a aprender de serralheiro (sic) em Queluz de Baixo…”

Deixa-nos também entrever uma comunidade que começa a aderir às novidades culturais e desportivas
do século XX:

“O Real Sport Clube foi criado aqui [no Bairro do Chinelo]. Sou sócio fundador! O primeiro presidente do clube cedeu um quarto [na sua casa, no Bairro do Chinelo] para sede do clube. Foi nos anos 50. O clube só foi filiado na Associação de Futebol de Lisboa em 1951.Mas em 1949 já existia a sede!(…) Eu jogava a defesa central.(…) Treinávamos na rua, no bairro, e ali em cima no largo [do Palácio de Queluz] fazíamos os desafios! O primeiro campo de futebol que houve em Queluz – foi ali, no Largo do Palácio, em frente ao Conde Almeida Araújo! (…) Jogávamos com equipas daqui e de além. Não havia telefones, era por convites escritos. Cheguei a ir jogar à Outra Banda, ao Montijo! E a Mafra… A gente corria estes arredores todos!”

Francisco sempre gostou de dançar, e continua a dançar até hoje – todas as semanas, segue para as danças de salão na Amadora. Lembra com alegria as festas e bailes populares da sua juventude:
“ Vinha gente de todo o Queluz para as festas dos Santos Populares aqui no bairro [do Chinelo]. (…) Levávamos quase todo o ano a acartar lenha do mato, lá da serra. Era material, mais material… Só os corajosos, é que conseguiam saltar aquela fogueira!”

“Em Queluz, havia bailes na praça antiga [mercado antigo], ali frente ao escritório do Doutor Leitão. Os bombeiros também faziam bailes. E na rua fazia-se muitos arraiais! Não era preciso autorização nem nada. Era pôr música a tocar no gira-discos!”

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